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FITOTERAPIA

Os benefícios das plantas medicinais no nosso dia a dia e na saúde pública

Elas podem ser produzidas em casa mas a utilização requer alguns cuidados. Confira a entrevista com a farmacêutica Silvia Cristina Heredia Vieira

Postado em 22/07/2019 às 19:04 |

Dra. Sílvia Cristina Heredia Vieira dá dicas de como utilizar as plantas medicinais de forma segura. (Foto: Arquivo pessoal)

Quem nunca tomou um chá para relaxar, para melhorar uma dor de estômago ou usou uma planta recomendada pela vovó para colocar em um machucado? A tradição é antiga mas é preciso conhecimento para que tenha o efeito desejado, sem riscos para a saúde.      

A flora brasileira tem aproximadamente 55 mil espécies de plantas e muitas podem ser consideradas  cientificamente medicinais. Ajudam na prevenção e até mesmo na cura ou controle de algumas doenças. A cidade de Dourados está rodeada de espécies nativas do Cerrado, com altíssimos potenciais terapêuticos que podem ser explorados pela população.

A implantação de hortas com essas plantas nas unidades de saúde é o primeiro passo para que a rede pública passe a receitar esses remédios naturais aos pacientes. O trabalho na cidade está apenas no começo, para atender ao programa do Ministério da Saúde e assim conseguir recursos para ampliar o projeto.

O Portal da Cidade conversou com a farmacêutica Silvia Cristina Heredia Vieira, para entender como as plantas medicinais podem fazer parte da nossa rotina, trazendo benefícios para a saúde e proporcionando bem estar.  

PC- Como as plantas medicinais podem ser utilizadas no nosso dia a dia? 

Sílvia- Planta medicinal é qualquer planta que possui alguma indicação terapêutica com base em conhecimento científico ou com base no conhecimento popular. Essas plantas podem ser utilizadas de diversas formas como em chás, xaropes e cápsulas, pomadas, banhos, inalação, sprays, entre outras. As plantas medicinais e os fitoterápicos, que são medicamentos produzidos a partir dessas plantas, constituem um tipo de prática integrativa e complementar, o que significa que podem ou devem ser usados como tratamento junto com os medicamentos alopáticos. 

PC- Tem uma quantidade limite para o uso? 

Sílvia- Se considerarmos como exemplo os chás, caso não haja prescrição médica, recomenda-se tomar até 3 xícaras por dia por tempo a ser definido de acordo com a planta. Não é recomendável utilizar a mesma planta por mais de 30 dias. Isso, porque as plantas medicinais possuem princípios ativos, ou seja, substâncias que têm o efeito medicinal, que são responsáveis pela atividade terapêutica. Não podemos olhar para as plantas medicinais como um “remédio” apenas natural, e que por isso não fazem mal. Esses princípios ativos em excesso podem ser tóxicos ou causar alguma reação. 

PC- Quais os benefícios das plantas medicinais para a saúde?

Sílvia- Cada planta medicinal tem um benefício. Nessa época do ano, por exemplo, utilizamos muito o guaco, por ter indicação como expectorante, inclusive, já foi liberado pelo Ministério da Saúde para uso pelo SUS. Há plantas que melhoram as dores de estômago por serem anti-gástricas como a espinheira-santa (cancorosa), que também é liberada para uso no SUS. Há plantas sedativas que ajudam diminuir o estresse, como a camomila e a melissa. O importante, antes do uso, é consultar um profissional da saúde ou, pelo menos, pesquisar sobre a planta. 

PC- Existem casos em que não é recomendado o consumo de planta medicinal? 

Sílvia: Sim. Algumas plantas, devido ao seu potencial terapêutico, devem ser evitadas em algumas situações. Um exemplo é o alho, que apesar de ser muito indicado por seu potencial antimicrobiano, possui substâncias anticoagulantes, por isso não é indicado antes de procedimentos cirúrgicos. A cavalinha é hipotensora, o que significa que pessoas com pressão baixa devem ter cautela no uso. Há ainda pessoas que possuem alergia à algumas substâncias contidas nas plantas e que só  descobrem com o uso. Em uma de minhas aulas da disciplina de Fitoterapia comentei sobre o hibisco, que é indicado por seu poder antioxidante e pelo alto teor de vitamina C. Um aluno não se atentou à quantidade orientada para consumo e teve uma significativa queda de pressão. É importante destacar que não se recomenda o uso exclusivo de planta medicinal em casos de enfermidades graves, como câncer, diabetes, problemas renais e outras. 

PC: Quais são as mais utilizadas pelas pessoas? 

Sílvia- As plantas mais utilizadas são aquelas que podem ser cultivadas nos quintais e que muitas vezes são usadas como condimentos. Entre elas, podem ser citadas hortelã, funcho, camomila, erva cidreira, poejo, boldo, carqueja e babosa. Nos últimos tempos, com a busca por uma vida mais natural e saudável, tem sido divulgado o uso de plantas com efeitos medicinais principalmente como antioxidantes e aceleradoras do metabolismo, por isso também têm sido consumidas espécies como hibisco, açafrão e gengibre, consideradas as plantas do momento. Há ainda algumas espécies utilizadas como complemento alimentar, que são conhecidas como plantas alimentícias não convencionais, como a ora-pro-nobis, peixinho, taioba, flores de capuchinha e os frutos da pimenta rosa. 

PC- Podem ser utilizadas no tratamento de animais?  

Sílvia- Sim, com certeza. As plantas medicinais podem ser uma forte aliada nesses tratamentos. Eu gosto muito da babosa, que tem potencial cicatrizante. Os chás de calêndula e camomila podem ser utilizados nas limpezas e cicatrização das feridas, inclusive após cirurgias, pelos potenciais cicatrizante e antimicrobiano. Os aromas de óleos das plantas medicinais, chamada de aromaterapia, podem ser utilizados nas salas de espera pelo efeito calmante  

PC: Quais são as mais fáceis de ter em casa, de produzir? 

Sílvia- As plantas de mais fácil cultivo são aquelas de pequeno porte e de ciclo rápido, como boldo, babosa, hortelã, erva cidreira, capim cidreira, manjericão, poejo, carqueja e guaco. 

PC: Com a liberação de 12 plantas medicinas para serem receitadas pelo SUS, o que seria necessário para colocar isso em prática?  

Sílvia- Embora haja uma lista de plantas medicinais liberadas para uso no SUS, que podem ser prescritas pelos médicos e farmacêuticos, não existe uma obrigatoriedade no uso dessa prática integrativa. O uso vai depender do incentivo por parte do poder público e do interesse dos membros das UBS, Unidades Básicas de Saúde. O incentivo tem sido pequeno, por isso não vemos a distribuição dessas plantas e nem de fitoterápicos nos postos de saúde. Utilizar as plantas medicinais no SUS poderia ser uma forma de diminuir o consumo de medicamentos alopáticos, o que diminuiria os gastos com os tratamentos, de uma forma geral.  Mais adiante pensaríamos até na produção de fitoterápicos.


Dra. Silvia Cristina Heredia Vieira- Farmacêutica

CRF/MS - 3729

E-mail: silviacristina_85@hotmail.com e Facebook 

Dourados-MS



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